Embora o primeiro corte leve 18 anos, produtores dizem que investimento
na árvore nativa vale a pena
Começam a surgir no Brasil os primeiros plantios comerciais
de guanandi, árvore nativa, embora pouco conhecida, e que tem
madeira semelhante à do mogno. A demanda, até a interna, é grande
e o País ainda está longe de atendê-la. Mas estudos do agrônomo
Lorisval Tenório de Vasconcelos podem mudar a situação. Desde
que começou a divulgar a viabilidade do guanandi, há dois anos,
Vasconcelos já assessorou cerca de 200 agricultores no plantio
da árvore, em todo o País.
Apesar de pouco conhecido, o guanandi - chamado de jacareúba
na Amazônia - tem uma longa história no País. Em 1835, foi decretado
como a primeira madeira-de-lei do País. Por se desenvolver em
áreas alagáveis, é mais resistente e não apodrece dentro da água.
Na época, a madeira era usada pela indústria naval. Hoje, por
sua semelhança com o mogno, o guanandi já começa a ser requisitado
pela indústria moveleira.
Há dez anos, quase por acaso, Vasconcelos começou a procurar
uma planta nativa que se adaptasse bem a áreas alagáveis. "O Brasil
está carente de opções de madeira. Temos o eucalipto e o pinho,
que estão desvalorizados", diz. "O guanandi é uma alternativa
para fazer reflorestamento em áreas úmidas, como beira de rios."
Na literatura, ele encontrou o guanandi. E decidiu desenvolver
um projeto para difundir o plantio, procurando ajuda na Embrapa
Florestas. "O pesquisador Paulo Ernani defendeu uma tese de doutorado
sobre a árvore", diz. "Depois, busquei informações no Departamento
de Ciências Florestais da USP."
Descobriu que a planta é viável comercialmente e que se adapta
bem a todas as regiões do País, até em áreas mais secas. Outra
vantagem é que o Código Florestal permite seu plantio e corte.
"E a planta não é atacada pela broca Hypsipyla grandela, que ataca
mogno e cedro, afetando seu desenvolvimento."
Retorno a longo prazo
Apesar das atrativas vantagens, o guanandi não é uma cultura
indicada para quem pensa em retorno financeiro imediato. O tempo
de corte é longo: cerca de 18 anos. "É como se fosse uma aposentadoria;
um investimento a longo prazo", diz. Só é possível ter a primeira
receita no décimo ano, quando pode ser feito o primeiro desbaste.
Nesse caso, porém, o rendimento é baixo. Hoje, o mercado paga
em torno de R$ 750 o metro cúbico. O corte principal é feito só
após 18 anos. A cotação hoje é em torno de R$ 2 mil o metro cúbico.
"O tempo de corte é o mesmo do eucalipto. Só que o guanandi vale
cem vezes mais."
O investimento, para quem já tem a terra, é apenas com as mudas
e plantio. O gasto com manutenção, em 18 anos, é baixo, em torno
de R$ 9 mil por hectare ou R$ 500 ao ano por hectare. Considerando
que, ao fim dos 18 anos, o aproveitamento é 300 árvores por hectare
e que cada árvore rende cerca de 1 metro cúbico, é possível ter
rendimento de até R$ 600 mil por hectare. Embora o retorno seja
altíssimo, o perfil de quem tem investido no guanandi não é propriamente
o do agricultor. "A maioria é de proprietários de terra que não
vivem da agricultura, mas têm áreas ociosas."
Saiba mais: Vasconcelos florestal, tel (0-16)
3242-2975 e site www.reflorestar.com.br
Áreas ociosas passam a ser bem aproveitadas
Como a produção leva tempo, ideal é reservar para o guanandi
locais sem lavoura
Logo que começou a pesquisar, há mais de dez anos, Vasconcelos
fez plantios demonstrativos, em diversos tipos de solo. A partir
do ano passado, após os primeiros resultados, ele começou a divulgar
o estudo.
Desde então, já prestou assessoria, vendeu mudas, sementes e
tecnologia para mais de 200 produtores. "Com certeza o retorno
financeiro é um incentivo muito forte. Vejo como se fosse uma
aposentadoria", diz o agricultor Luiz Marcelo Paranhos, que destinou
50 hectares em Paudalho (PE) para o guanandi. "Os tratos culturais
são mínimos. Só no início é um pouco trabalhoso. Meu plantio tem
um ano e meio e já noto mais facilidade na lida com a planta."
Paranhos é fruticultor - tem 185 hectares plantados, irrigados,
de coco verde - e o investimento no guanandi é uma forma de aproveitar
melhor a propriedade. Ele não deixou de plantar coco e nem erradicou
áreas com a fruta. "O guanandi vai ocupar uma antiga área de pastagem,
onde não compensava mais manter o gado."
Aposta no futuro
O cafeicultor Renato de Mattos Ribeiro, de Guaxupé (MG), acredita
que ainda há muito o que aprender sobre o guanandi. Mas já destinou
cerca de 50 hectares, em Mococa (SP), para a árvore. "É uma planta
que ainda precisa de estudos. Mas talvez seja o eucalipto do futuro."
Ribeiro está usando um pouco da experiência com o plantio de
café e tentando adaptá-la ao guanandi. "Plantamos 830 plantas
por hectare. No décimo ano devemos ter o primeiro desbaste, em
torno de 50%", diz. Ele calcula que, sendo pessimista e contando
perdas naturais, deve chegar ao fim dos 18 anos com 300 árvores
por hectare. "Dá para ter 0,8 metro cúbico por árvore, o que daria
240 metros cúbicos por hectare. Contando as perdas, falamos em
200 metros cúbicos por hectare." Com conotação semelhante à do
mogno (hoje em torno de R$ 4.500 o metro cúbico), daria um rendimento
R$ 900 mil por hectare. Dividindo por 18 anos, em torno de R$
50 mil por ano/hectare. "Nenhuma cultura dá um retorno financeiro
desses."
Niza Souza
O Estado de S. Paulo - 07 de setembro de 2005